O DOMINADOR OCULTO

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por Teresa Cristina Pascotto

Talvez este texto não seja o mais agradável de se ler, pois o ego adora ler conteúdos que falem de sua dor e do quanto ele é vitimizado pelos outros. Mas quando se trata de nossa responsabilidade e do nosso lado oculto, o ego esperneia e bloqueia nossa vontade, para que não encontremos as verdades de nossos movimentos reais nas dinâmicas ocultas na interação com os outros. Se você se sentir incomodado com o conteúdo deste texto, sugiro que aceite o desconforto e leia até o final e tenha a real intenção de permitir que estas verdades entrem em ressonância com seu coração que irá lhe mostrar, talvez em outro momento, o quanto você realmente atua de forma misteriosa, criando situações ilusórias de vida que fazem de você a eterna vítima, enquanto os outros são sempre os culpados.

As aparências enganam… Comece então a se observar, com muita honestidade e humildade, e procure encontrar dentro de você as outras faces misteriosas, sinistras, perigosas e dissimuladas que você possui.

Normalmente, nas relações humanas, existe uma condição em que um é o dominador e o outro é o dominado. Aqueles que têm uma tendência a dominar e são explícitos em sua manifestação, são os mais corajosos, pois mostram claramente que gostam de ter poder sobre os outros. Muizes, são ditadores tiranos e usam a força de um autoritarismo que faz com que todos tremam de medo em sua presença ou apenas de seu olhar judicioso e ameaçador. Aqui tudo está às claras, enquanto o dominador mostra seu furor e sua extrema necessidade de dominar, o dominado simplesmente aceita essa condição, por achar que não tem outra opção.

Porém, existem relações em que essa mesma condição acontece, mas não é percebida pelos envolvidos, pois ocorre de forma velada, na dinâmica oculta. Para que fique mais claro, vou citar um exemplo básico dessa condição velada. Vamos falar sobre a relação de uma mãe com seu filho. Neste caso, a mãe é o dominador oculto e o filho é o dominado oculto. Enquanto na dinâmica oculta é esta a condição que prevalece e determina a relação, na “vida real”, nas aparências e manifestações de ambos, o que se percebe é que o filho é um grande manipulador, que vive agarrado à sua mãe, prendendo-a para si, para tê-la à sua disposição, e a domina. Ele manipula a mãe, para que ela seja sua extensão, para que fique sempre esperando pelos momentos em que ele precise dela. Isto não somente na infância, mas se estende para a vida adulta. É uma condição que se mantém, pois até mesmo para a mãe, que é manipulada pelo filho, existe uma grande vantagem por trás disso: o controle sobre o filho.

Assim, esse filho, desde a infância, começa a criar os jogos para poder manipular sua mãe e para extrair dela o melhor, absorvendo até mesmo sua energia, este filho acaba “vampirizando” sua mãe -que consente inconscientemente-, porque se o filho depende dela em todos os sentidos e precisa até mesmo de sua energia, então ele nunca a “deixará”, nunca irá abandoná-la. A mãe se deixa manipular e vampirizar, pois ganha um lugar de poder na vida do filho. Mas isto tudo tem um preço muito alto para ambos, pois nenhum dos dois está verdadeiramente disponível para sua vida, nenhum dos dois conseguirá viver plenamente em suas totais capacidades.

O filho é dependente da mãe e não consegue ficar sem ela. Mesmo quando sai, quando vai para a vida, leva consigo a energia de sua mãe, para que ela continue a protegê-lo e para que esteja energeticamente à sua disposição. Nesta condição, a mãe não “fica em si”, mas está sempre “no filho”, a vida dela se torna inexpressiva, vazia, “básica”, sem grandes possibilidades de viver de verdade, pois ela “não pertence a si mesma, mas pertence ao filho”. O filho se sente poderoso quando vai para a vida, pois está sempre reforçado e protegido por sua mãe.

Olhando para esta questão, aparentemente a mãe é a dominada e seu filho é o dominador. A mãe nunca tem paz, pois sempre está vivendo a vida do filho, vivendo seus dramas, suas dores, seus tormentos. Vivendo suas tentativas de conquistas. Esta mãe está tão disponível para o filho, que ela praticamente está vazia em sua própria luz. Ele pode estar vivendo qualquer coisa, que lá está a mãe. O filho precisa da mãe de uma forma perigosa, ele “não consegue viver” sem ela, não suporta a ideia de não ter mais sua mãe 100% à sua disposição, se a mãe, por algum motivo, decidir recolher sua energia, voltando-se para si mesma, o filho sentirá uma sensação horrível de abandono, de vulnerabilidade e até mesmo de pânico. Ele puxa e segura a mãe para si, tirando-lhe todo o poder sobre sua própria vida. Mas ele também não pode viver de verdade, pois se sentiria culpado.

Se a mãe não vive sua vida para ser dele, então ele não pode viver sua vida, deixando-a de fora. Assim, ele se acomoda em uma vida sem muita expressão, sem muitos avanços e sem a verdadeira alegria de viver. Aqui, a mãe é a vítima de um filho manipulador e controlador, que não a deixa ser feliz em sua própria vida. Esta mãe pode sair, trabalhar, viajar, mas ela nunca “sente a força da vida”, nunca aprecia suas experiências, pois ela não está nela, está no filho. Este filho permite que sua mãe trabalhe, pois sabe que é necessário ter condições financeiras para sua sobrevivência. Mas ele nunca permite que ela evolua e se desenvolva plenamente, principalmente no desenvolvimento de seus dons, pois ele sente que esse caminho evolucional, é o único que realmente a “tiraria dele”. Ela vive uma vida limitada. Esta mãe pode ser uma “Deusa na Terra”, mas nunca manifestará esse potencial sagrado, enquanto ela não retomar sua pertença e não se assumir como um ser independente e livre, por medo de perder seu filho.

Porém, quando se enxerga a realidade oculta nesta relação, o que se vê é uma condição totalmente inversa. A mãe é a grande dominadora oculta e seu filho é o dominado. As duas condições são igualmente poderosas. A vida é um grande jogo e no jogo da “vida real”, eles encenam esse papel, mas na vida oculta, os papéis se invertem, dando o “equilíbrio” entre os dois jogos. Por trás dessas dinâmicas, há uma grande força do amor real.

Na dinâmica oculta, a “pobre mãe, vítima das manipulações de seu filho abusador”, mostra-se como a dominadora. Ela é perigosa, possessiva e pesa sobre o filho e, com esse jogo, onde ele a manipula, ela ganha o “controle sobre ele”. Enquanto ele a leva consigo em todas as suas experiências de vida, ela monitora tudo e controla tudo para que ele não viva nada que possa fazer com que ele a abandone. Para ela, a simples realidade de que o filho é um ser livre e que um dia se afastará dela – na fisicalidade -, a atormenta e a deixa em pânico. Quanto mais esse filho tenta se libertar de sua mãe, quando sente o peso de seu controle e domínio, mais ela usa recursos velados para interditá-lo e dominá-lo. Neste lugar oculto, essa mãe é uma ditadora tirana e autoritária, mas ela nunca se manifesta dessa forma para seu filho, a aparência que manifesta é sempre de uma mãe amorosa com boníssimas intenções de ajuda-lo. Se, por exemplo, seu filho está com alguma dificuldade em se relacionar, ela fará o papel da conselheira que quer ajudar o filho a conseguir se relacionar, quando, na verdade, há um jogo sinistro e oculto por trás desse papel de doce conselheira, ela NÃO quer que seu filho se relacione, ela o quer só para si. Se for para o filho ter algumas relações superficiais e vazias, ela até aceita, mas se for para ele ter um relacionamento de amor e intimidade, ela controla e domina, interferindo veladamente, para que ele nunca consiga de verdade se abrir para esse tipo de relação. Enquanto seu filho for “perdido” na vida – apesar da mãe sentir uma profunda dor por ver seu filho sofrendo com uma vida tão sem sentido e sem expressão -, a mãe será sua bússola e terá a garantia de que ele será seu para sempre.

Quando o filho vai para a vida e tira sua mãe de si mesma e a arrasta consigo, como se ela fosse um manto que o envolve, através deste ponto de percepção, a mãe é a vítima que não pertence a si e é dominada pelo filho. Ao olhar por outro ponto de percepção, esse tal manto de proteção é visto como um espectro da energia da mãe, pesando sobre seus ombros, fazendo esse filho carregá-la consigo, para que ela esteja o tempo todo dentro da vida dele, controlando tudo para que ele seja sempre seu.

Em raros momentos, quando o filho, por algum motivo não se deixa controlar, a mãe manipula para criar uma situação em que seu filho a ofenda ou a magoe, para que ela então possa ter uma justificativa para dar vazão à ditadora insana e perigosa, tirana e autoritária, explodindo em ira por ele ter ousado não permitir que ela o controle. Mostrando seu furor, o filho entra em contato com o medo inconsciente que tem de sua mãe. Esse filho, em suas manipulações, usa um jogo meio agressivo com sua mãe, o que faz com que ela sinta medo dele, sempre parece que ela é uma criança diante de um tirano ameaçador, que se submete aos seus caprichos. Mas na realidade oculta, ela é a ditadora perigosa e assustadora, e ele sente muito medo dela.

Essa é uma relação simbiótica, muito delicada de se tratar, pois eles estão tão perfeitamente presos nesse mecanismo duplo, que é preciso muita dedicação e, principalmente, coragem, para que possam se libertar um do outro. A base desse jogo é o medo da solidão, o medo de não encontrarem no mundo um lugar onde se sintam “tão seguros” quanto se sentem um com o outro.

Esta mesma condição ocorre entre casais e entre amigos. Ocorre em níveis superficiais e em níveis profundos, dependendo do que um significa e oferece para o outro.

Olhe para isso com carinho, perceba onde é você o ditador tirano na vida dos outros, tenha coragem de buscar essa verdade dentro de você, pois não adianta ficar reclamando das dificuldades da vida, porque a vida não irá salvá-lo enquanto você não tiver a coragem de fazer isso por você. Enquanto você não tiver a firme determinação em reconhecer seu lado dominador, sua vida continuará a mesma…

Você poderá perceber que em várias situações de vida, você sempre tenta dominar, se você é uma é pessoa que busca ajuda terapêutica, observe e perceba se não está diante de seu terapeuta “dando uma de coitadinho”, enquanto, na dinâmica oculta, você o está manipulando e ameaçando com seu ditador agressivo, fazendo seu terapeuta sentir medo de você, acovardando-se em lhe dizer as grandes verdades libertadoras. Se você continuar tentando esconder de si mesmo esse dominador oculto que há em você, o mundo sempre irá reagir com medo de você, mesmo que nem você, nem o outro percebam claramente que há esse jogo em que você ameaça veladamente e o outro se aterroriza diante de você.

Não reclame se não se sentir confortável de verdade com as pessoas, não se faça de vítima, pois é impossível alguém conseguir relaxar e apreciar a presença de um dominador oculto que está sempre pronto a atacar. Se você quer ter paz e uma vida de bem-aventurança, então, mergulhe no seu inconsciente e encontre esse dominador tirano. Depois, lide com ele, reconheça seus efeitos maléficos nos outros e vá educando-o até que ele se reconverta a uma autoridade saudável em sua presença. Isso, naturalmente, irá ajudá-lo a libertar a todos e a libertá-lo.

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