MAIS QUE PERFEITO

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Texto de Mariana Sgarioni

O que você faz nunca está bom o bastante, mas o que os outros fazem é pior? Você é um perfeccionista e não merece parabéns por isso. Saiba por quê.

A arquiteta Priscila*, do Rio de Janeiro, não delega tarefas a nenhum colega. Todo dia ela faz tudo sempre igual: chega cedo ao escritório e mergulha no trabalho, fazendo e refazendo coisas, checando e rechecando dados. Ninguém – pensa ela – é capaz de igualar seu capricho e dedicação ao trabalho. Sem ajuda, um belo dia Priscila vacilou: esqueceu um relatório em cima da mesa e, por isso, atrasou (só um pouquinho) a entrega de um projeto. Pronto, seu mundo caiu. Ela chorou sem parar – logo ela, tão atenciosa, cometeu um deslize imperdoável. Aliás: existiria algum deslize perdoável?
Priscila é uma perfeccionista. E isso não é bom, nem para ela nem para ninguém.
Como todos gostaríamos que o mundo fosse perfeito, aqueles que buscam se aproximar desse ideal sempre foram associados a atributos positivos como disciplina, ordem, esmero e disposição para o trabalho duro. Só que, na tentativa de entregar a perfeição, não raro o perfeccionista simplesmente deixa de entregar. Perturbado pela idéia de manchar a reputação com tarefas malfeitas, ele destrói essa mesma reputação por não cumprir prazos e metas.

O perfeccionista é inflexível, teimoso, excessivamente preocupado com detalhes e obcecado pelo trabalho. Tudo isso acaba por inviabilizar a convivência social e profissional. Ninguém quer ter por perto um sujeito cabeça-dura, que não admite sair um milímetro da linha – fazer coisas como tomar uma cervejinha de vez em quando na hora do almoço em dia de expediente. Ninguém quer trabalhar com alguém que, dependendo do dia, pode produzir uma maravilha ou dar um belíssimo cano.
Sozinho e sem trabalho, o perfeccionista sofre e acaba procurando ajuda profissional. Médicos e psicólogos têm recebido um número cada vez maior de pacientes portadores desse problema, que pode desencadear coisas ainda piores: depressão, vícios, compulsões e até suicídio.

A mente perfeccionista

Por não serem estigmatizados como os portadores de outros distúrbios – como depressão ou síndrome do pânico –, os perfeccionistas raramente percebem que há algo errado com eles. “Eles têm orgulho de sua condição, já que a cultura da nossa sociedade valoriza e reforça as atitudes deles”, afirma Alice Provost, psicóloga da Universidade da Califórnia em Davis (EUA) que estuda o comportamento perfeccionista.

A auto-imagem positiva é uma das poucas alegrias dessas pessoas. “O perfeccionismo traz muito sofrimento, como medo excessivo de cometer erros, pressão sobre a própria performance, tensão, frustração, tristeza e medo de humilhação”, explica a psicóloga americana Monica Ramirez Basco no livro Never Good Enough: Freeing Yourself from the Chains of Perfectionism (“Nunca Bom o Bastante: Libertando-se das Correntes do Perfeccionismo”, sem tradução para o português). “Isso porque os perfeccionistas têm a convicção de que só serão aceitos pelos outros se forem perfeitos.” Segundo Monica, a maioria das pessoas que se torna perfeccionista aprendeu desde muito cedo que só seria reconhecida e avaliada por suas realizações – nunca pelo que elas são. Desse modo, seu comportamento é pautado a partir da avaliação das outras pessoas, o que faz com elas queiram ser sempre perfeitas para se proteger das críticas.

Monica catalogou os perfeccionistas em duas categorias opostas: os introspectivos e os extrospectivos. Os primeiros são aqueles que têm auto-estima baixíssima, não confiam em nada do que fazem. Nunca estão satisfeitos com seus trabalhos; acham que qualquer errinho será uma catástrofe e os outros não irão gostar mais deles. Os outros têm a auto-estima elevada, mas não confiam em absolutamente ninguém no trabalho – não delegam nada e exigem que todos ao seu redor alcancem a perfeição que eles buscam em si mesmos. São, em português claro, chatos.

Já que enveredamos pela taxonomia do distúrbio, saiba que o perfeccionismo é só uma característica – ainda que a principal – daquilo que os médicos chamam de personalidade obsessivo-compulsiva. (Aqui, parênteses para explicar que isso não é o já popular TOC – transtorno obsessivo-compulsivo –, marcado por rituais repetitivos como lavar as mãos o dia inteiro ou checar 20 vezes por dia se a porta está trancada. Os portadores de TOC costumam ter consciência de sua condição e procuram tratamento logo.)

Quem sofre de personalidade obsessivo-compulsiva tem sérias dificuldades de se adaptar ao meio em que vive. Além de perfeccionismo, o “pacote” traz uma preocupação excessiva com regras, detalhes e organização de processos, excesso de escrúpulos e de moralidade. Ele é tão obcecado por métodos e processos de organização que dificilmente consegue finalizar uma tarefa – as regras são mais importantes do que a meta. Por exemplo: o roteirista que está habituado com a organização dos arquivos em seu computador pode entrar em parafuso se sua máquina pifar e ele for obrigado a trabalhar numa emprestada. Só que, na maioria das vezes, essa esquisitice é confundida com um simples “jeito de ser”.

Fale a verdade: quantas pessoas com essas características você conhece? E que gostam de dizer que são teimosas, detalhistas ou simplesmente metódicas? Pois é, elas podem ser doentes. “A personalidade obsessivo-compulsiva dos perfeccionistas não é sentida como um corpo estranho na vida, assim com um ataque de pânico ou uma crise de depressão, que incomoda e a pessoa sente necessidade de tratar”, diz Geraldo Possendoro, psiquiatra e professor de medicina comportamental da Unifesp. “O obsessivo-compulsivo acha que é assim mesmo e pronto.”

Esse sujeito não busca ajuda até começar a sofrer perdas na vida – e não saber direito o porquê. A separação conjugal, a perda de amigos e a falta de trabalho podem descambar para a depressão e/ou a dependência de álcool e/ou de drogas. Esse é o estopim do pedido de socorro, mas não a razão do sofrimento. “O problema primário disso tudo é a personalidade obsessivo-compulsiva, marcada pelo perfeccionismo”, diz Geraldo.

Doença do nosso tempo

Até aí, você deve estar pensando: gente teimosa e turrona existe desde que o mundo é mundo. Por que só agora se percebeu que isso é um transtorno de personalidade que deve ser tratado? Porque a vida nunca foi tão difícil para os perfeccionistas.

Até poucas décadas atrás, o ritmo mais lento da vida – e do trabalho – dava espaço a que o sujeito cabeça-dura se ocupasse com suas obsessões e fosse especialista nelas. Um afinador de pianos podia demorar semanas para devolver o instrumento ao cliente, pois seu trabalho dependia somente de talento, aptidão e treinamento. Mas as coisas mudaram: surgiram artefatos eletrônicos que, se não substituem perfeitamente o trabalho de um ouvido absoluto, tornam o serviço bem mais rápido e com um resultado aceitável para a maioria dos mortais. Pior para os afinadores perfeccionistas, inventaram pianos eletrônicos que nunca precisam ser afinados.

Em resumo: a pessoa precisa saber se adaptar, coisa dificílima para um perfeccionista. “Vivemos numa era em que as vidas social, profissional e afetiva exigem flexibilidade”, afirma Geraldo Possendoro. “Quem não é flexível fica para trás e sofre de ansiedade.”
Além disso, a era da informação rápida e fácil – mas nem sempre confiável – é o inferno dos perfeccionistas porque os obriga a elevar os próprios padrões de exigência. Até meados da década de 1990, um jornalista que quisesse escrever sobre afinação de pianos precisaria se desdobrar para achar fontes especializadas de informação. Qualquer besteira escrita passaria em branco para a maioria dos leitores – só os perfeccionistas teriam disposição para correr atrás dessas fontes. Hoje, qualquer tipo de informação – de afinação de pianos a disfunções intestinais do bagre africano – estão disponíveis na internet para o jornalista, seu chefe e todos os seus leitores (ai, Jesus!).

Mais fácil que mudar esse mundo é tentar amolecer a cabeça dura dos perfeccionistas. Mas como? A psicóloga americana Alice Provost propôs um exercício para o grupo que estudou na universidade – uma série de regras que tinham por objetivo livrar essas pessoas de suas próprias regras mentais. Elas eram mais ou menos assim: termine o expediente na hora certa; não chegue ao trabalho antes da hora estabelecida; faça todas as pausas a que tem direito; deixe a mesa bagunçada; determine um número de tentativas para concluir um trabalho e, em seguida, entregue o que tiver. “Parecem coisas banais, porque aquilo que alguns deles consideram fracasso é algo para o que a maioria das pessoas não dá a mínima importância”, diz. Depois pergunte: você foi castigado? A universidade deixou de funcionar? Você está mais feliz? Segundo a professora, os cobaias perceberam que se preocupavam demais com bobagens. “Todos ficaram surpresos porque tudo continuava funcionando.”

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